{água vívida}

quando as confissões se libertam

Tag: vida

do sonho

eu tive um sonho. daqueles que a memória consegue apenas destacar instantes-já que juntos não fazem sentido. as imagens não dizem muito. daqueles que os instantes-já são repletos de emoção… fui dormir com todos os sentimentos do mundo engasgados na goela. loucura, calma, loucura, calma… respira. chora. disfarça. levanta. densa… até que acordei. o tipo de ressaca da angústia é entorpecente. a cama e meu corpo tornaram-se um. lembrei brevemente que sonhei. uma espécie de esperança e calma. coração. paciência. contraditórios.

do tempo

é louco como funciona a vida. e o coração. aos poucos, no meu caso lentamente, superamos as dores. no passe de mágica da virada deste ano, dei conta disso. não no primeiro dia do ano. mas depois. estou impressionada comigo mesma.

e, logo em seguida, devolveram-me uma das minhas mulheres. ou ela simplesmente acordou. tal como a bela adormecida. salvação. a vida.

da inverossimilhança

Entramos em 2018. Lúcida o bastante. Livre e leve. Fortalecendo-me. Rompendo ali e acolá. Como se uma tranquilidade adentrasse o corpo – jamais me ocorreu antes. Confiança e autossuficiência. Inexplicável. Sem medo. 

Estranheza. Inverossimilhança. Afinal, como é viver assim?

Questionei-me se este estado em que me encontro não é uma espécie de negação. Da vida como ela é. Realidade. Estar em negação. Não acredito que seja medo. Porventura, organizar e romper. Das etapas. Mudança.

Ao passo que o mês avançou e na medida que o dia-a-dia tem se encaixado na rotina, mais quero ser uma manhã de domingo. Calma. Sossegada. Extrinsecamente radiante. Eu tenho dançado todas as manhãs. E madrugadas. O tempo é presente. Instantes.

E, mesmo assim, não me anula as dores. Como poderia? Eu não reclamo. Sentir me faz viva. Ainda que seja pela falta de ar. Angustias. Aquela pontada no peito. O ar blasé. A eterna sensação de lucidez. Como me diz Clarice, “em mim é profunda a vida”. Por dentro eu permaneço a mesma.

Caso contrário, se chamaria mágica. Ou tudo isso tem sido apenas um sonho.

 

 

da comemoração

e o que foi a vida? uma aventura obscena, de tão lúcida

hilda hilst. a obscena senhora D.

novamente, amanhã é o aniversário. eu entro em pânico. aquele desconforto. nausea. como sempre, atacam o estômago.

eu fico minutos parada na mesma posição. quem sabe assim, o incomodo passa. o silêncio me absorve. eu me fecho. coração esquenta.

eu sigo acreditando que viver exige um certo talento natural. dom. que certamente eu não possuo. contento-me com o simples existir. apenas tolero os acasos que se sucedem dia após dia. e constituem a vida.

ando indisposta. o desejo não se sustenta assim. cansei da rotina. desinteressante. aos poucos, vou cedendo para a solidão. no fundo, quando a loucura não nos invade, consigo ser.

nada vence a indisposição. tenho evitado situações distractivas. afundo-me em alguns livros, cadernos. café e cigarro. remédios. e os dias poderiam ser resumidos assim. idealmente.

comemoraremos clarice, hilda e eu. amanhã. no ritual do três de novembro.

do banho

Há alguns dias, durante o banho, uma súbita onda reflexiva adentrou o corpo. Epifania. Dei conta de que enquanto estivesse na companhia do chuveiro aberto, o Mundo não mais giraria. Tornei-me inalcançável.  A mente fora então teletransportada para longe das obrigações. Esse transe persistiu por longos minutos. Poderia jurar que foram horas. A água, espumas e eu. Nada mais existia. O corpo cedeu. A temperatura da água e o vapor. Aliviado. A realidade não mais me pertencia. O corpo limpo. Como se a espuma, conforme escorresse por ele, extirpasse da alma o peso da vida. Entorpecido. O som calmante da água caindo. O olhar minucioso preso nos detalhes. O tato da mão enrugada. A respiração leve… Imediatamente… Eu voltei a enxaguar o cabelo.

do futuro – prólogo

Quando se é criança, o Mundo parece ser maior do que ele realmente é, quiçá pelo fato de que ainda existe muito para se descobrir. Quando se é criança, vive-se confinado em uma bolha, sem poder de escapatória. No entanto, para a imaginação, essa bolha da vida cotidiana pouco importa. O Mundo pode ser recriado a todo instante. Cria-se enredos e brincam em um Domingo a tarde com outras crianças. Na televisão, nos contos e nas leituras existe a euforia que nos faz crer em um mar de possibilidades que ultrapassa qualquer conceito da ciência. Somos quem queremos ser. Existe desejo na existência. Não existe limite para a imaginação!

Pelo menos, é assim que a reminiscência vem. Meus irmãos corriam de um lado para o outro e inventavam grandes histórias. Diversão. No entanto, eu nunca fui essa criança que concentrava o poder criativo nas atividades inerentes à infância. Pelo menos, não me recordo. Por outro lado, costumava escrever e ler assiduamente. Sempre possui cadernos e depositava em cada linha todas as ficções que minha imaginação de criança produzia… O futuro era uma possibilidade em aberto e isso não me incomodava tanto. Eu ainda tinha anos pela frente.

Em algum momento, entre uma troca de caderno ou de estilo, o futuro passou a ser uma lacuna. Irremediavelmente vazia. Eu apostei algumas fichas em algumas possibilidades. Nenhuma despertou aquela sensação gostosa de desejo que somente a infância proporciona. Talvez, o futuro tenha chegado. Talvez, não. Talvez, por um triz nunca será futuro.

Hoje em dia, a euforia infantil se tornou apatia. A percepção de que o futuro, sendo amanhã ou daqui 20 anos, sempre estará em aberto me causa episódios intensos de ansiedade. Há dias que acordo e me questiono se o esforço para levantar da cama e viver nesse mundo (mas, principalmente, nessa sociedade) vale a pena. Ainda assim, eu levanto. O dia então mesmo que minuciosamente planejado na agenda desperta uma espécie de angustia. Eu não tenho controle do futuro. E sigo.

do minuto

acordar. café. carro. reunião. carro. almoço. reunião… um amigo do passado… mesa. cigarro… a rotina me engoliu. o dia enrijecendo cada vez mais. subitamente, uma avalanche tomou meu corpo. um incomodo tão imediato. fisgada de dor, daquelas que a dúvida da lágrima paira na mente. então, passou… mesa. carro. av paulista… outra pessoa do passado… não senti nada ruim. às vezes o passado não desperta apenas lembrança intragável… sorri. carro. casa. moletom. netflix.

não ando densa. ainda que a vista continue pesada e os olhos se apertem. ainda que por dentro seja tudo tão imensamente hermético. posso dizer que não sinto com frequência. sinto e deixo de sentir. tão imediatamente quanto piscar os olhos. tão rápido e ao mesmo tempo aterrorizante, que a respiração falha… e a incerteza oscilante: apatia ou vivacidade?

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