{água vívida}

quando as confissões se libertam

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da comemoração

e o que foi a vida? uma aventura obscena, de tão lúcida

hilda hilst. a obscena senhora D.

novamente, amanhã é o aniversário. eu entro em pânico. aquele desconforto. nausea. como sempre, atacam o estômago.

eu fico minutos parada na mesma posição. quem sabe assim, o incomodo passa. o silêncio me absorve. eu me fecho. coração esquenta.

eu sigo acreditando que viver exige um certo talento natural. dom. que certamente eu não possuo. contento-me com o simples existir. apenas tolero os acasos que se sucedem dia após dia. e constituem a vida.

ando indisposta. o desejo não se sustenta assim. cansei da rotina. desinteressante. aos poucos, vou cedendo para a solidão. no fundo, quando a loucura não nos invade, consigo ser.

nada vence a indisposição. tenho evitado situações distractivas. afundo-me em alguns livros, cadernos. café e cigarro. remédios. e os dias poderiam ser resumidos assim. idealmente.

comemoraremos clarice, hilda e eu. amanhã. no ritual do três de novembro.

do banho

Há alguns dias, durante o banho, uma súbita onda reflexiva adentrou o corpo. Epifania. Dei conta de que enquanto estivesse na companhia do chuveiro aberto, o Mundo não mais giraria. Tornei-me inalcançável.  A mente fora então teletransportada para longe das obrigações. Esse transe persistiu por longos minutos. Poderia jurar que foram horas. A água, espumas e eu. Nada mais existia. O corpo cedeu. A temperatura da água e o vapor. Aliviado. A realidade não mais me pertencia. O corpo limpo. Como se a espuma, conforme escorresse por ele, extirpasse da alma o peso da vida. Entorpecido. O som calmante da água caindo. O olhar minucioso preso nos detalhes. O tato da mão enrugada. A respiração leve… Imediatamente… Eu voltei a enxaguar o cabelo.

do futuro – prólogo

Quando se é criança, o Mundo parece ser maior do que ele realmente é, quiçá pelo fato de que ainda existe muito para se descobrir. Quando se é criança, vive-se confinado em uma bolha, sem poder de escapatória. No entanto, para a imaginação, essa bolha da vida cotidiana pouco importa. O Mundo pode ser recriado a todo instante. Cria-se enredos e brincam em um Domingo a tarde com outras crianças. Na televisão, nos contos e nas leituras existe a euforia que nos faz crer em um mar de possibilidades que ultrapassa qualquer conceito da ciência. Somos quem queremos ser. Existe desejo na existência. Não existe limite para a imaginação!

Pelo menos, é assim que a reminiscência vem. Meus irmãos corriam de um lado para o outro e inventavam grandes histórias. Diversão. No entanto, eu nunca fui essa criança que concentrava o poder criativo nas atividades inerentes à infância. Pelo menos, não me recordo. Por outro lado, costumava escrever e ler assiduamente. Sempre possui cadernos e depositava em cada linha todas as ficções que minha imaginação de criança produzia… O futuro era uma possibilidade em aberto e isso não me incomodava tanto. Eu ainda tinha anos pela frente.

Em algum momento, entre uma troca de caderno ou de estilo, o futuro passou a ser uma lacuna. Irremediavelmente vazia. Eu apostei algumas fichas em algumas possibilidades. Nenhuma despertou aquela sensação gostosa de desejo que somente a infância proporciona. Talvez, o futuro tenha chegado. Talvez, não. Talvez, por um triz nunca será futuro.

Hoje em dia, a euforia infantil se tornou apatia. A percepção de que o futuro, sendo amanhã ou daqui 20 anos, sempre estará em aberto me causa episódios intensos de ansiedade. Há dias que acordo e me questiono se o esforço para levantar da cama e viver nesse mundo (mas, principalmente, nessa sociedade) vale a pena. Ainda assim, eu levanto. O dia então mesmo que minuciosamente planejado na agenda desperta uma espécie de angustia. Eu não tenho controle do futuro. E sigo.

do fluxo

não sei como escrevo… o porquê é óbvio: escrevo para arrancar essa espécie de febre e dor dos sentires abundantes… sinto demais. ou, em boa parte do tempo, de menos – em escala: da ordem dos números negativos… escrevo a dor física. a dor dor. escrevo os concretos que se transformam em paranoias e desconforto.. os empecilhos da sobrevivência e sanidade. poucas vezes fui completamente subjetiva. ainda que a dor na alma seja, por definição, abstrata… o corpo sempre denuncia que não vou bem internamente, antes mesmo da mente alertar… a questão é que são raros os momentos que a febre de subjetividade adentra o corpo e consigo traduzi-la. mesmo que ela seja constante… mesmo me sentido complexa. mesmo quando me sinto nada. mesmo quando deliro… talvez, seja problemas de confiança… em mim mesma… comigo mesma… dentro de mim… porventura, vergonha não diagnosticada. e quando escrevo devaneios e confissões duras no caderno vermelho, nunca volto a ler. os tabus da minha vida… não sei. é só um fluxo de consciência que se instalou na cabeça. algumas palavras desconexas. apenas.

festa do livro da USP

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Há quatro anos, meu Natal costuma chegar um pouco mais cedo por causa da Festa do Livro da USP – que vai até Sexta-feira na Travessa C (aquela entre o CEPEUSP e o Bandejão Central na Cidade Universitária) e, como sempre, está com preços ótimos. Tendo isso em vista e toda a re-paginada que dei no blog essa semana, decidi que não faria mal compartilhar com vocês um pouco das minhas aquisições de hoje. Claro que não poderia faltar Hilda Hilst (um dia, quem sabe, ainda completo minha coleção de livros dela) e muito feminismo e marxismo.

Títulos da foto:

  1. Mulheres Trabalhadoras e  Marxismo – C. Carrasco e M. Petit (Ed. Sundermann)
  2. A Nova Mulher e a Moral Sexual – Alexandra Kollontai (Expressão Popular)
  3. Mulher, Estado e Revolução – Wendy Goldman (Ed Boitempo)
  4. Tu Não Te Moves de Ti – Hilda Hilst (Ed Globo)
  5. Rútilos – Hilda Hilst (Ed Globo)
  6. Rua de Mão Única – Walter Benjamin (Ed Autêntica)
  7. PORNOCHIC – Hilda Hilst (Ed Globo)

são paulo

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* sobre a lembrança de algum feriado;

** influência da chuva que entenebrece minha janela de vidro.

Era noite. Véspera de feriado.

No carro, com alguma música bem calma que faz afronta ao todo, buzinas que ecoam pelas pontes, uma dor de cabeça irritante e pitadas de nostalgia: o Rio Tietê virou palco. Em todos esses anos, essa é a primeira vez que encontro beleza em tal cenário. É incrível como a cidade de São Paulo passa inteirinha por dentro das águas do Rio. Contagiante como as luzes dos postes e dos carros se espraiam e misturam-se com as espumas. A sensação de cidade me abarca, bem como a solidão e o escuro. Agridoce. Extraordinário como o reflexo distorcido de uma cidade distorcida se vislumbra. Incoerente. Inexplicável.

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