{água vívida}

quando as confissões se libertam

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da comemoração

e o que foi a vida? uma aventura obscena, de tão lúcida

hilda hilst. a obscena senhora D.

novamente, amanhã é o aniversário. eu entro em pânico. aquele desconforto. nausea. como sempre, atacam o estômago.

eu fico minutos parada na mesma posição. quem sabe assim, o incomodo passa. o silêncio me absorve. eu me fecho. coração esquenta.

eu sigo acreditando que viver exige um certo talento natural. dom. que certamente eu não possuo. contento-me com o simples existir. apenas tolero os acasos que se sucedem dia após dia. e constituem a vida.

ando indisposta. o desejo não se sustenta assim. cansei da rotina. desinteressante. aos poucos, vou cedendo para a solidão. no fundo, quando a loucura não nos invade, consigo ser.

nada vence a indisposição. tenho evitado situações distractivas. afundo-me em alguns livros, cadernos. café e cigarro. remédios. e os dias poderiam ser resumidos assim. idealmente.

comemoraremos clarice, hilda e eu. amanhã. no ritual do três de novembro.

do minuto

acordar. café. carro. reunião. carro. almoço. reunião… um amigo do passado… mesa. cigarro… a rotina me engoliu. o dia enrijecendo cada vez mais. subitamente, uma avalanche tomou meu corpo. um incomodo tão imediato. fisgada de dor, daquelas que a dúvida da lágrima paira na mente. então, passou… mesa. carro. av paulista… outra pessoa do passado… não senti nada ruim. às vezes o passado não desperta apenas lembrança intragável… sorri. carro. casa. moletom. netflix.

não ando densa. ainda que a vista continue pesada e os olhos se apertem. ainda que por dentro seja tudo tão imensamente hermético. posso dizer que não sinto com frequência. sinto e deixo de sentir. tão imediatamente quanto piscar os olhos. tão rápido e ao mesmo tempo aterrorizante, que a respiração falha… e a incerteza oscilante: apatia ou vivacidade?

do sorriso

** de algum dia desses que não me culpei por sorrir.

Sorria. Perguntei o motivo. Permaneceu sorrindo como se não me ouvisse. Fitava-me deliciosamente. Sorria tanto que, em certo momento, eu poderia jurar que era capaz de contar todos os seus dentes. E me olhava. Incômodo. Era como se borboletas recém nascidas voassem no estômago fazendo-me cócegas. Contagiada fui pelo sorriso. Logo tentei não sorrir. Tentei conter. Tentei de tudo. Mas continuava me observando. Sequer piscava. Tentei desviar o olhar. Pois, assim, talvez, as borboletas se aquietassem. Insuficiente. Meu corpo fora tomado por esta figura sorridente. Espantei-me quando percebi meus músculos faciais dando contornos para a minha boca. Segui sorrindo. Incontrolável. Regozijo. Um excesso se formou na garganta feito um bolo de júbilo excêntrico e fluido. Faltou-me até ar… Naquele sorriso efusivo. Largo. Cheio de energia. Reluzente… Ao passo que tal alegria me invadia, nossa distancia aumentava. E aumentava. E aumentava… Anoiteceu. Desvaneceu.

desafia

Acordei, há alguns dias, com as dores do Mundo confinadas no âmago. Tais que desafiam a Física e surgem em espaços inexistentes. Encaixam-se em loci que eu mesma me aperto dentro de mim. A disputa se acirra. Pois bem, não me atrevo a escrever sobre o Mundo que não pertenço. Nas minhas Confissões, eu mal me encaixo, dirá o Mundo.

guia dos desamores {parte 2 – a linha tênue entre carência e opressão}

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* Tenho minhas ressalvas quanto a questão do amor, tendo em vista a sociedade em que vivemos;

** No fundo, não sou tão insensível assim (ou sou, né? foda-se);

*** da série Guia dos Desamores

Na madrugada passada, assisti a um desses filmes bem ruins, bem românticos e com atores que parecem que foram feitos de cera. A história é o mais do mesmo: amor a primeira vista. Basicamente, uma mulher conhece um homem, ela passa três dias presa na casa dele (porque choveu e estava tudo alagado) junto com o filho do cara e a governanta. No final do terceiro dia, a personagem principal flagra o homem e a suposta vilã se beijando. Daí ela foge. E, ele aparece com um cavalo branco na frente do lugar que ela trabalha para demonstrar todo o AMOR que tem pela mulher em questão. Uma babaquice sem tamanho, diga-se de passagem.PAUSA REFLEXIVA Não sou perita em romance, mas uma coisa é certa: esses filmes são construídos sob o signo do machismo e uma pitada de distorção da realidade. No fundo, corroboram para a perpetuação de relações cada vez mais abusivas que, por serem práticas tratadas como naturais, camuflam-se no simbolo do amor.

Enquanto assistia, lembrei de uma amiga minha, por isso, senti vontade de escrever. Pois bem, pontuarei algumas questões.

Primeiramente, o básico. Queria dizer que as chances de você se apaixonar por alguém em meros TRÊS DIAS são iguais as chances de eu conseguir me transformar em uma coruja em 1 segundo. A não ser que você seja algum tipo de sociopata. E não me venha com hipervalorizar o amor como se fosse uma entidade que transcende ao espaçoxtempo dos meros mortais, porque isso, minhas caras e meus caros, NÃO EXISTE; bem como essas histórias de hollywood.

Em segundo lugar, também não vale fazer projeções de alguém e se apaixonar por essa PROJEÇÃO. Pois, no limite, você está se apegando a um fantasma, uma elaboração da sua mente, uma ilusão da realidade. Mas esse argumento é o de menos, uma vez que é você que vai quebrar a cara no final (não eu e muito menos a sua “””parceira”””). O grande problema que orbita esta questão é que, muitas vezes, os atributos escolhidos para a construção desta imagem têm seio no estereótipo machista da tal “mulher para casar”. Não obstante que nos filmes, a tal “mocinha” (personagem principal da Malhação!) é toda doce, simpática, não chama muito a atenção porque “se guarda” e essas coisas; e, a vilã fica de salto alto 24h por dia, grita, tem aquela voz petulante e passa mais maquiagem do que devia. E essas duas convivem em um ambiente que cheira a competição. O que eu quero dizer é que esse tipo de construção NÃO É NATURAL, nem de longe, muito menos de perto. Acho que já deu pra entender meu ponto!

É sempre importante demarcar o que é trivial: NÃO É NÃO! E, não importa se a mulher disse isso rindo, olhando para parede ou para você, séria, bêbada, sóbria… Esteja a mulher na condição que for. Se você ouvir um NÃO, isso in-cri-vel-men-te significa NÃO. O mesmo vale para a seguinte situação: se você pede alguém em namoro e a pessoa recusa, mas continua saindo com você, isso também NÃO significa que vocês estão QUASE namorando. Já parou para pensar que você pode ser apenas uma boa companhia, mas que as imposições e circunstâncias que você coloca acabam repelindo a pessoa da ideia de te dar uma chance?

Poderia escrever mais, porém o tempo não está me deixando. Em suma, é sempre bom refletirmos as relações que temos por esse Mundo afora. Pois, a linha que distingue a carência da opressão é bastante tênue.

são paulo

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* sobre a lembrança de algum feriado;

** influência da chuva que entenebrece minha janela de vidro.

Era noite. Véspera de feriado.

No carro, com alguma música bem calma que faz afronta ao todo, buzinas que ecoam pelas pontes, uma dor de cabeça irritante e pitadas de nostalgia: o Rio Tietê virou palco. Em todos esses anos, essa é a primeira vez que encontro beleza em tal cenário. É incrível como a cidade de São Paulo passa inteirinha por dentro das águas do Rio. Contagiante como as luzes dos postes e dos carros se espraiam e misturam-se com as espumas. A sensação de cidade me abarca, bem como a solidão e o escuro. Agridoce. Extraordinário como o reflexo distorcido de uma cidade distorcida se vislumbra. Incoerente. Inexplicável.

distancias

*sobre o que eu acho que tenho sido, por isso, serei breve.

a cada passo que dou, sinto-me mais distante das pessoas ao meu redor. é um desconforto inimaginável estar por entre as gentes. porventura, tal sensação vêm do distanciamento – cada vez mais evidente – de mim mesma. o desconforto latente entre o que eu estou acostumada a ser e o sou. é como se, aquela minha metade, que certa vez se jogou do abismo, nunca tenha de fato ido embora… e, assim, tornou-me uma ilusão de mim mesma. amórfica. escala. volta. voltou?

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