{água vívida}

quando as confissões se libertam

Tag: medos

do futuro – prólogo

Quando se é criança, o Mundo parece ser maior do que ele realmente é, quiçá pelo fato de que ainda existe muito para se descobrir. Quando se é criança, vive-se confinado em uma bolha, sem poder de escapatória. No entanto, para a imaginação, essa bolha da vida cotidiana pouco importa. O Mundo pode ser recriado a todo instante. Cria-se enredos e brincam em um Domingo a tarde com outras crianças. Na televisão, nos contos e nas leituras existe a euforia que nos faz crer em um mar de possibilidades que ultrapassa qualquer conceito da ciência. Somos quem queremos ser. Existe desejo na existência. Não existe limite para a imaginação!

Pelo menos, é assim que a reminiscência vem. Meus irmãos corriam de um lado para o outro e inventavam grandes histórias. Diversão. No entanto, eu nunca fui essa criança que concentrava o poder criativo nas atividades inerentes à infância. Pelo menos, não me recordo. Por outro lado, costumava escrever e ler assiduamente. Sempre possui cadernos e depositava em cada linha todas as ficções que minha imaginação de criança produzia… O futuro era uma possibilidade em aberto e isso não me incomodava tanto. Eu ainda tinha anos pela frente.

Em algum momento, entre uma troca de caderno ou de estilo, o futuro passou a ser uma lacuna. Irremediavelmente vazia. Eu apostei algumas fichas em algumas possibilidades. Nenhuma despertou aquela sensação gostosa de desejo que somente a infância proporciona. Talvez, o futuro tenha chegado. Talvez, não. Talvez, por um triz nunca será futuro.

Hoje em dia, a euforia infantil se tornou apatia. A percepção de que o futuro, sendo amanhã ou daqui 20 anos, sempre estará em aberto me causa episódios intensos de ansiedade. Há dias que acordo e me questiono se o esforço para levantar da cama e viver nesse mundo (mas, principalmente, nessa sociedade) vale a pena. Ainda assim, eu levanto. O dia então mesmo que minuciosamente planejado na agenda desperta uma espécie de angustia. Eu não tenho controle do futuro. E sigo.

do minuto

acordar. café. carro. reunião. carro. almoço. reunião… um amigo do passado… mesa. cigarro… a rotina me engoliu. o dia enrijecendo cada vez mais. subitamente, uma avalanche tomou meu corpo. um incomodo tão imediato. fisgada de dor, daquelas que a dúvida da lágrima paira na mente. então, passou… mesa. carro. av paulista… outra pessoa do passado… não senti nada ruim. às vezes o passado não desperta apenas lembrança intragável… sorri. carro. casa. moletom. netflix.

não ando densa. ainda que a vista continue pesada e os olhos se apertem. ainda que por dentro seja tudo tão imensamente hermético. posso dizer que não sinto com frequência. sinto e deixo de sentir. tão imediatamente quanto piscar os olhos. tão rápido e ao mesmo tempo aterrorizante, que a respiração falha… e a incerteza oscilante: apatia ou vivacidade?

do ______ vazio

_ ultimamente a mente tem colocado para o corpo a tarefa de resolver as emergências. o corpo realmente não sabe se aguenta mais. a mente se esforça para manter o maquinário funcionando. independente do dano para a alma.

Não sou. Não sei se algum dia fui. Se sou, sigo sendo nada. Um vazio que se instalou. Uma eterna lacuna em branco. Que é nada. Porém, sinto. Uma dor brutal da profundeza se espraia. Dor física. A cabeça não elabora… A guerra. O choro. Estatelada no chão. Por horas. Dirigindo. O choro. O corpo retorcido. Nada paira na mente. Vazia. Solitária. Apenas a dor. A mágoa. A vontade ensandecida de enlouquecer. Gritar. Respirar fundo. O pensamento centrado na dor física. Em “não aguento mais” repetidamente. Um, dois, três, quatro dias. Enrijecida de novo. A vida que continua. Nada muda. O baque de quando tudo muda rápido demais. Saiu da alçada. O corpo que quer desistir. O vácuo que a mente se torna. Vida. Rotina. Desconforto. Máquina. Concreto. Sozinha.

do fluxo

não sei como escrevo… o porquê é óbvio: escrevo para arrancar essa espécie de febre e dor dos sentires abundantes… sinto demais. ou, em boa parte do tempo, de menos – em escala: da ordem dos números negativos… escrevo a dor física. a dor dor. escrevo os concretos que se transformam em paranoias e desconforto.. os empecilhos da sobrevivência e sanidade. poucas vezes fui completamente subjetiva. ainda que a dor na alma seja, por definição, abstrata… o corpo sempre denuncia que não vou bem internamente, antes mesmo da mente alertar… a questão é que são raros os momentos que a febre de subjetividade adentra o corpo e consigo traduzi-la. mesmo que ela seja constante… mesmo me sentido complexa. mesmo quando me sinto nada. mesmo quando deliro… talvez, seja problemas de confiança… em mim mesma… comigo mesma… dentro de mim… porventura, vergonha não diagnosticada. e quando escrevo devaneios e confissões duras no caderno vermelho, nunca volto a ler. os tabus da minha vida… não sei. é só um fluxo de consciência que se instalou na cabeça. algumas palavras desconexas. apenas.

do (possível) crepúsculo

_ das raras e boas lembranças que o Facebook tem me proporcionado.

_desculpe-me qualquer incoerência, mas como ser coerente quando se expressa movimentos incompletos da alma em um Mundo de concretos?

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Deparei-me com uma fotografia minha de dois anos atrás tirada pelo El País na Praça do Ciclista. Eu estava na concentração de um dos atos contra as injustiças da Copa. Não conseguirei ter precisão, mas examinei a foto minuciosamente por bons e longos minutos. Alguma coisa se remexeu dentro de mim. Talvez, um misto de saudade e angústia que fez com que meu coração acelerasse e, logo, milhões de pensamentos aterrissaram na mente.

De lá para cá, eu mudei… Mais do que eu gostaria de admitir, a minha relação com Mundo também mudou. Esta que fora sempre oscilante, conseguiu alcançar seu auge em euforias e sua decadência em lamentos.

Posso dizer que, ao observá-la, um sorrateiro orgulho me preencheu: o passado não me condena, mas dá esperanças de que o futuro ainda me pertence. Eu, mulher, estava em um protesto (não era o primeiro e, muito menos, o último). Ocupando um espaço público. Sendo um ser politicamente ativo. Remeteu ao tempo que eu finalmente me dei conta de que meu cabelo não precisava ser comprido para que, ainda assim, eu fosse mulher e feminina. Eu vestia uma blusa branca e não estava sendo escrava dos aros do sutiã. Ainda, com segurança, deixei que me fotografassem.

No entanto, diante do constante movimento de romper-fixar que mantenho com o Mundo, a imagem do retrato desvaneceu. Desde que os meus ninguéns acordaram e emergiram do mais profundo de mim, a guerra interior se sobressai em detrimento do cotidiano, dos desejos, dos sonhos. Eu costumo perder batalhas. Muitas vezes porque a disputa é desleal. O patriarcado está constantemente tencionando para que culpas e inseguranças as ganhem. Nesse movimento truncado e esgotante, o corpo acaba que não aguenta: existem vozes atormentando a autoestima; outras reafirmam que o Mundo não vale a pena; algumas ainda reforçam todos os perigos de ser mulher e andar nas ruas; os sussurros constantes de que jamais serei suficiente. O medo me asfixia. Chega a ser claustrofóbico viver dentro de si mesma quando as estruturas da sociedade potencializam as fragilidades da própria existência.

Eu sinto saudade de pisar na rua. Gritar palavras de ordem. Sentir que sou capaz de conversar satisfatoriamente sobre política, de novo. Sinto saudade dos breves lapsos em que eu sentia algo próximo ao pertencer.

Estou há algumas semanas dizendo que a apatia tem me enrijecido, deixando-me fria. Essa saudade, em contrapartida, cálida. Como se o verão tivesse chegado dentro de mim – a guerra persiste, porém, com algumas esquinas rutilantes… Eu acho que, hoje, é deste ponto que eu parto. Penumbras. À luta.

Dos lampejos que reacendem a coragem de enfrentar a ordem – de fora para dentro, vice-versa. A vontade de nos ultrapassar me toma. Superar o que fui, o que sou. Seguiremos tentando romper as amarras coletivamente. Cada dia mais fortes! O empoderamento continuará na ordem do dia para toda a Vida. Podemos!

das escolhas

eu não fui inclusa. entendi que o Mundo que me rodeia vem cortando nossos laços há tempos. às vezes, parece que ninguém ficou. questiono se alguma vez alguém esteve. realizei que não tenho mais espaço nas vidas, inclusive na minha. resolvi que preciso de mais espaço. chamar de meu. eu. singular.

gostaria de ter rompido com o Mundo antes que ele o fizesse. assim, talvez, doesse menos. fosse tristeza controlada. agora, pairo em tentativas vermelhas de controlar o incontrolável em um contante movimento de endurecer. finalmente, alguém tomou esta decisão por mim: devo ser muralha. romper nunca pareceu tão difícil.

de hoje

eu não sei dizer ao certo o que eu senti. só tenho a completa certeza de que era triste e angustiante. um pouco sufocante também. às vezes chega a doer um pouco. na verdade, sinto o coração parar e voltar. ou mesmo queimar. as mulheres que me habitam também não me dão um tempo, cada uma me diz uma coisa… elas são tão diferentes que viro claustrofóbica dentro de mim mesma. uma avalanche de sentimentos contraditórios me ataca. dos meus devaneios sobre tratar um amigo como um mero colega.

a vida é feita de escolhas.

ninguém nunca disse que elas seriam fáceis.

ninguém nunca disse que elas seriam suas.

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