{água vívida}

quando as confissões se libertam

Categoria: Confissões

do eclipse lunar

É um carinho muito grande que eu tenho por você, passado. Mas acho que nosso tempo já passou. Há muito tempo. Eu prefiro te deixar. Ali. Intacto. Um pouco bonito. Um pouco na escuridão. Agora é meu tempo. Sem ressentimentos. Velhos hábitos. A “relacionamentofobia”. Antigos rancores. Contam anos de limpeza emocional. Eu sou outra. Finalmente, a liberdade. Leve. Calma. Vamos tateando. Conhecendo. Ressignificando. Perdendo oportunidades. Dando a mim outra chance. Talvez, viver não exija nenhum grande dom inato.

do dito

eu já disse muitas coisas enquanto estava muito bêbada. inclusive coisas que eu nego até hoje, pois, já dizia o ditado: se eu não lembro, eu não disse.

contaram que uma vez eu soltei as três palavras. estranhamento. elas não têm espaço na minha redoma relacionamentofóbica. às vezes o álcool nos força a deixar fluir. até mais do que nós próprios estamos dispostos a bancar no cotidiano.

eu aprendi a não confiar em bêbados.

por mais bem intencionados que aparentem ser.

do indecifrável

acho que passei os últimos dias morrendo. não sei dizer. normalmente eu sei o que se passa por aqui. motivos. a parte que me deixa ou, raramente, a parte que me renasce. dessa vez, nulo. no entanto, eu sinto que algo morreu. ou está morrendo. e existe outra coisa no mais profundo de mim brotando. indecifrável. a ansiedade tem feito uma cortina de fumaça bastante potente. não me adentro. acordei diferente nesta manhã de Sol. hoje eu vejo o Sol. e me encanto.

sentada no sofá da varanda. olhando a paisagem edificada que São Paulo. subitamente percebi que havia acordado melhor. perguntei-me se estava viva. ainda não, ouvi. viva ou não, perceber as cores do dia é uma dádiva divina. invejo os que se deslumbram com tais todos os dias. é um talento. inato. que, obviamente, eu não possuo.

fixei o olhar no horizonte. a cabeça não para de pensar. uma saudade avassaladora do passado me apertou o peito. por mais sozinha que pensava que estava, eu não estava. eu sabia que não estava. hoje, contudo, não há braços. e eu sei que não há. é um pouco triste. ainda mais em momentos como dos últimos dias. ou eu surtava dentro de casa. ou saia completamente mascarada.

agora, reconciliei-me com a solidão e o silêncio.

da morte

quando a morte é um tabu, privam-nos até de morrer todos os dias. se digo que quero morrer, raramente, é no sentido literal. eu quero que essa vida efetiva morra. se vá. ou até mesmo a morte mais subjetiva de mim mesma. reinventar-se é uma arte. eu tenho me matado quase toda semana. renascer por completo é que tem sido tarefa árdua. mas pelo menos eu tenho estado. já é um avanço. no fundo, quero desaparecer. da vida. de mim. principalmente de mim mesma.

eu já disse que gostaria da leveza que uma vida insossa deve ter. ser alguém insosso também tem seus privilégios. pelo menos da distância quase infinita que tenho de qualquer vida desse tipo.

romper-fixar. voltamos. não dará certo de novo.

um sopro de vida, clarice lispector

“Do zero ao infinito vou caminhando sem parar. Mas ao mesmo tempo tudo é tão fugaz. Eu sempre fui e imediatamente não era mais. O dia corre lá fora à toa e há abismos de silêncio em mim. A sombra de minha alma é o corpo. O corpo é a sombra de minha alma. Este livro é a sombra de mim. Peço vênia para passar. Eu me sinto culpado quando não vos obedeço. Sou feliz na hora errada. Infeliz quando todos dançam. Me disseram que os aleijados se rejubilam assim como me disseram que os cegos se alegram. É que os infelizes se compensam.Nunca a vida foi tão atual como hoje: por um triz é o futuro.”

da manhã

o medo avassalador de mim mesma aterrorizou a manhã. eu poderia ser capaz de qualquer coisa. mas, por sorte, coloquei-me a chorar. e me contorcer.

uma manhã claustrofóbica. no corpo. na sala. na varanda. no quarto.

tem sido angustiante a vida. não sei se suporto o peso da incerteza.

eu estou morrendo, aos poucos, lentamente. eu vou romper.

da confiança

ultimamente uma ressonância louca tem tomado conta da ansiedade: confiar e não confiar.

eu tenho medo. é insuportável a angústia que vem quando me deparo com certas situações, a saber, causam-me uma espécie de culpa por ter confiado.

a algumas pessoas, confiei a intimidade. eu gostaria de poder retirar-me. A outras, confiei a companhia. a algumas poucas, dei ambas.

ainda assim, a solidão me pegou de jeito esses dias. será que vale a pena se abrir para o novo? a indiferença me abala.

Kundera me fez viver no Domingo. mas seu efeito sobre mim foi efêmero. não durou até as 18h. dei conta da mediocridade que habita meu corpo e de Tomás.

hoje, o conflito armado entre a racionalidade e o coração. já sabemos quem vencerá.

eu me fecho.

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