{água vívida}

quando as confissões se libertam

Categoria: Ano Novo

da inverossimilhança

Entramos em 2018. Lúcida o bastante. Livre e leve. Fortalecendo-me. Rompendo ali e acolá. Como se uma tranquilidade adentrasse o corpo – jamais me ocorreu antes. Confiança e autossuficiência. Inexplicável. Sem medo. 

Estranheza. Inverossimilhança. Afinal, como é viver assim?

Questionei-me se este estado em que me encontro não é uma espécie de negação. Da vida como ela é. Realidade. Estar em negação. Não acredito que seja medo. Porventura, organizar e romper. Das etapas. Mudança.

Ao passo que o mês avançou e na medida que o dia-a-dia tem se encaixado na rotina, mais quero ser uma manhã de domingo. Calma. Sossegada. Extrinsecamente radiante. Eu tenho dançado todas as manhãs. E madrugadas. O tempo é presente. Instantes.

E, mesmo assim, não me anula as dores. Como poderia? Eu não reclamo. Sentir me faz viva. Ainda que seja pela falta de ar. Angustias. Aquela pontada no peito. O ar blasé. A eterna sensação de lucidez. Como me diz Clarice, “em mim é profunda a vida”. Por dentro eu permaneço a mesma.

Caso contrário, se chamaria mágica. Ou tudo isso tem sido apenas um sonho.

 

 

do futuro – prólogo

Quando se é criança, o Mundo parece ser maior do que ele realmente é, quiçá pelo fato de que ainda existe muito para se descobrir. Quando se é criança, vive-se confinado em uma bolha, sem poder de escapatória. No entanto, para a imaginação, essa bolha da vida cotidiana pouco importa. O Mundo pode ser recriado a todo instante. Cria-se enredos e brincam em um Domingo a tarde com outras crianças. Na televisão, nos contos e nas leituras existe a euforia que nos faz crer em um mar de possibilidades que ultrapassa qualquer conceito da ciência. Somos quem queremos ser. Existe desejo na existência. Não existe limite para a imaginação!

Pelo menos, é assim que a reminiscência vem. Meus irmãos corriam de um lado para o outro e inventavam grandes histórias. Diversão. No entanto, eu nunca fui essa criança que concentrava o poder criativo nas atividades inerentes à infância. Pelo menos, não me recordo. Por outro lado, costumava escrever e ler assiduamente. Sempre possui cadernos e depositava em cada linha todas as ficções que minha imaginação de criança produzia… O futuro era uma possibilidade em aberto e isso não me incomodava tanto. Eu ainda tinha anos pela frente.

Em algum momento, entre uma troca de caderno ou de estilo, o futuro passou a ser uma lacuna. Irremediavelmente vazia. Eu apostei algumas fichas em algumas possibilidades. Nenhuma despertou aquela sensação gostosa de desejo que somente a infância proporciona. Talvez, o futuro tenha chegado. Talvez, não. Talvez, por um triz nunca será futuro.

Hoje em dia, a euforia infantil se tornou apatia. A percepção de que o futuro, sendo amanhã ou daqui 20 anos, sempre estará em aberto me causa episódios intensos de ansiedade. Há dias que acordo e me questiono se o esforço para levantar da cama e viver nesse mundo (mas, principalmente, nessa sociedade) vale a pena. Ainda assim, eu levanto. O dia então mesmo que minuciosamente planejado na agenda desperta uma espécie de angustia. Eu não tenho controle do futuro. E sigo.

dos meus ritos {adeus, 2015}

Eu sei que estou atrasada, para variar.

A verdade é que eu precisava sentir o adeus de Dois Mil e Crise para seguir adiante.

Por meses, fechei os olhos para a vida. Larguei as rédeas e esforcei-me para não lembrar do paradeiro. Segui o roteiro que me fora dado. Fui alguém que queriam que eu fosse. Eu não sou. Padecer então era tudo que eu poderia viver. Achei que nunca mais necessitaria abrir os olhos de novo. Caso contrário, significaria, no limite, aceitar e encarar o “realmente”. Achei que nunca estaria preparada para dizer adeus. Não sou boa com despedidas.

Foi vendaval. Violento. O canto triste das aves. O ritual que o corpo clamava há dias – uma dor nas costas se instalou e denunciou que já estava na hora. Minha mente, todavia, fez de tudo para protelar esse acontecimento. Inocente, fechei os olhos. Uma ventania me tirou o ar. Fui obrigada a, lentamente, deixá-los abertos. Desengasguei-me. No escuro do quarto. Onde as lágrimas se camuflam no rosto. E os inchaços não são vistos. No único lugar que fotos podem ser rasgadas e objetos se quebram. E o silêncio impera… Na cerimônia em que nos ultrapassamos e rompemos com o Mundo antes dado. Crise. Episódio.

Renasço assim da simbiose quase perfeita de quem eu fui mas, principalmente, das possibilidades de quem serei. Fênix.

ímpar. sobre 14 e novo.

2014

* não estava nos planos escrever uma despedida para 14 e Novo, nem meus achismos sobre Dois Mil e CRISE… Daí li “KADOSH”, mudei de ideia.

Este texto, rascunho sobre um ano implacável, não estava programado para existir. Haja vista que consigo facilmente descrevê-lo com poucas e certeiras palavras desconexas, como bem lhe cabe o adjetivo, sem questionamentos quanto a sua plenitude. Sendo assim, não vi o porquê de escrever sobre algo apaticamente intenso. Não existem razões para explicar os meus não abraços, não beijos, não sorrisos. Muito menos descrever a fragrância de um ano que teve cheiro de café e solidão. Subjetivo. Estático. Todavia, é desconforto que precisa se expressar.

Meu desconforto talvez venha por eu ainda estar perdida de mim mesma. Ou, pelo meu próprio desconforto com a vida.  A pergunta que paira e acolhe todas as palavras escritas durante 2014, porventura, seja: e o que foi a vida? Pois bem, não me arrisco a responder, já que mesmo embriagada, tenha sido lúcida demais. Às vezes, claustrofóbica.

Poderia desenhar o ano que passou com as mesmas palavras que fiz Dois Mil e Doce, e este rascunho ainda seria amargo. Acre. Agridoce. Digo isso pois disputaram-me acirradamente. Intensidade. Contudo, apenas. Dois Mil e Doce é o quebra-cabeça que demorou 365 dias para se completar. Todas as peças fizeram sentido. Os tons deixados foram arte, ainda que contrastados. Em contrapartida, 14 e Novo caso juntado, não assume forma. Sem coesão e coerência. No limite, diria que se por um lado conseguiu fechar alguns jogos em aberto, por outro deu-me quebra-cabeças novos que, talvez, necessitem mais do que dias para serem montados. Minha recusa em escrever isto quiçá seja reflexo da incapacidade que o incompleto me coloca.  Ainda que, amiúde, escreva sobre o inacabado.

14 e Novo abre portas para Dois Mil e Crise. O que foi par, terminou impar e consolidou um gosto forte de tarja preta nas bocas, na minha própria.

dissabores novos

*Esse texto não é continuidade de nenhum deste ano

** Talvez seja um novo texto de ano novo ou até mesmo um acúmulo de notas de rodapé

 

Lembro-me de um texto que escrevi em 2013 no qual meus dedos calejados almejavam compor a mudança. Não se passou de mais um relato nostálgico e dolorido do passado. Dessa vez, portanto, farei de maneira clara, sincera e sem usar daquela minha tinta da melancolia; querendo finalmente demarcar essa troca de roupa que de tão necessária – agora! – bate e pisa e chuta a minha porta.

Abre. Abra-se. Abrace. Não ao que não foi. Sim ao que virá. “Por que não?” para o que possa aparecer, acontecer e se suceder. Então, que venha novo. Que não tenhamos o de novo. Destrincharei aqui uma síntese daquilo que não me incomoda, mas te incomoda. Ou, pelo menos, tentarei organizar minhas impossíveis confissões, meus medos caducos, minha mente fria e doida e sem sentido.

Começo meu relato ainda sem rumo e desconexo, com algumas dúvidas sobre como prosseguir, como redigir. Se o farei com a razão ou não. Se a sinceridade e a sobriedade estarão comigo o tempo todo. Mas, principalmente, se farei deste um abrigo sentimental, uma espécie de porto-seguro sem erros ou apenas um reduto de todas as minha falhas, das minhas inquietações. Talvez eu escolha esta última, mesmo ainda irredutível no que tange contar-me, culpar-me ou até me assumir. Gosto do sabor dos meus esconderijos, fazer o quê. Só espero não me perder nele e, no final desta escrita, encontrar a saída:  tal que marque as angustias de quem ficou e as desventuras de quem foi.

A súplica quente de querer-me sempre aquecida solene me intriga. Intriga essa minha pele e alma tão geladas, esse meu muro tão bem construído, esse meu olhar de descaso, o meu jeito impessoal e não natural de lidar com o todo, com todos. A contradição então paira. Pois, ainda assim, existe sangue que corre, coração que palpita, avalanches. Existe um “sim, me abrace”, tem vontades. Tenho vontades. Tenho sentir. Por vezes, tenho demais. Aparento, no entanto, de menos. Falta sensibilidade. Falta-me, talvez, uma marreta para derrubar meu muro, quebrar minhas travas, meus medos, meu estou. Dessa forma, mantenho-me na condição de que sou isso. Talvez imutável. Talvez insensível.  Não me aquece, mas me mantém protegida. Todavia, ainda quero o fulgor vermelho de uma lareira e uma boa taça de vinho, talvez também alguma companhia.

Ainda assim sou fogo. Estou fogo. Difícil dizer. Quero deixar de ser um iceberg no meio do oceano infinito. Deixa a frieza e o gelado. Deixa de ser insensível. No fundo, a grande mudança que meus dedos e desejos aflitos anseiam em contar é esta: preciso urgentemente da transição entre sou e estou, por mais confuso que seja; preciso deixar que vá.

Racionalmente, já contei da minha grande mudança. Agora, vamos ao próximo ponto: a grande confissão do porquê escrevo.

Confesso então que tenho medos e que, como uma bela relacionamentofóbica, meu maior medo é o que sentir, machucar-me. No entanto, não significa que não sinto. E dou voltas. Posto isso, a melhor amalgama para tal questão se resume no fato de que meu medo, na bem das verdades, transcende ao sentir e se relacionar, uma vez que tais são as consequências do medo da dor, do descontrole e da instabilidade. Além do mais, não escondo de ninguém que coloco a dor no campo das fraquezas, pois bem, doer-me trás a tona um eu fraco. Um eu que não quero que seja eu. Portanto, travo-me e atraco-me com os meus ninguéns.

Neste cenário, declaro falência deste meu sistema. Não quero mais ser guiada por esse meu jeito control freak que burla qualquer instância do meu sentir. Quero 2014 impulsionado pela coragem e não por uma idealizada e burocraticamente selada em cartório relacionamentofobia. Quero 2014 no vale tudo da vida. Quero dissabores novos, limites novos. Quero-me forte ou fraca. Apenas quero-me.

menos 13 e mais 14.

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Eu já tentei escrever esse texto várias vezes. O primeiro parágrafo já existiu de tantos jeitos, formas e apelos que eu poderia ter juntado todos eles e formado um corpo só. Sinto que essa minha dificuldade em escrevê-lo vem justamente por não ter tido um ano de 2013 emocionante, diferentemente daquele 2012 que pegou fogo, que foi paixão , que foi dor e desejo.  2013 tem tanto para contar, tantas sensações que só ficaram comigo, tanto amor que eu tinha pra dar e não dei, tanto tudo que os nadas eu deixei para lá. 2013 não me enlaçou, não me embriagou, mas me lapidou da melhor maneira possível, o que me faz pensar que ao passo que o tempo passa fico cada vez mais perto do meu eu-diamante. O texto que escrevo, portanto, destoará bastante do seu propósito, uma vez que todos os textos que eu quis escrever durante esse ano (e que não escrevi!) se encaixarão aqui e colocarão à prova todos os porquês, tudo que não deveria ter sido e o será.

O meu único desejo em relação ao ano que passou era o de alcançar o Estado de Ouro na expectativa de que 2012 fosse superado – em todos os sentidos que a palavra me permite. Meu suspiro era para que 2013 fosse ainda mais vermelho de fogo e paixão, mais intenso, menos tenso, menos “ele”, mais eu. Queria  cura imediata para qualquer dor, angustia ou rancor. Queria um 2012 melhorado, arrumado, melhor pintado. Queria 2012 de volta com sua fragrância própria, com suas cores tinindo pra mim. Tal que fora o maior dos erros, a pior das definições do que deveria ter sido dourado e de ouro.

Quero 14 e novo, mas não de novo. Que o 13 e velho e o Dois Mil e Doce fiquem lá nos seus 365 dias e não tentem mais ultrapassá-los. Uma vez que para trás ficou o passado – por mais bonito que possa ter sido. Quero que fique lá, bem lá atrás compondo sua famosa música com aquele espectro de cores inimagináveis ornando o que se foi. Eu já não preciso disso tudo; na bem de todas as verdades, jamais precisei achando, ainda, que precisava.

Passei 2013 pensando e vazando e calculando e não-pensando e maquinando e fazendo. Porém, fazendo um concreto da vida. Tudo me foi bastante duro, vazio, pouco coeso e sem coerência. Faltou-me emoção, aquela pitada de paixão, altos e baixos, faltou você (e o por você), faltou sentir. No fundo eu ainda preciso de algo que supere 2012. Contudo, venha com calma – repito. Não quero mais que seja uma caça, não quero mais terra firme. Eu quero é mar. Amar. Mas, não quero flutuar, nem velejar: eu quero nadar de bruços olhando pro céu azul clarinho. Nadar pelos meus tudos e os nosso impossíveis nadas. Eu quero que nada seja palpável. Quero a intensidade e leveza da água. A onda. Os peixes. O mar calmo e rumoroso.

E, já bastou pra mim de jogo. Apostas. Previsão. Já se esgotou toda a minha mira, todo aquele meu olhar. Já não me liberta ter uma meta.  Já não quero mais  controlar e manipular e, depois, enfrentar. Que fique com a água da chuva que cai em terra a angústia do você que me fez mal. Deixa a dor reciclada e moída para a nossa próxima vida, para a nossa próxima tentativa. Pois quando eu disse mar, eu quis dizer um novo oceano infinito; não aquele mar finito que começa e termina em você, feito com as minhas velhas lágrimas e desespero. Deste eu espero que o destino tome conta. Não pode ter esse você naquilo que me será novo. Nenhum resquício de um você. Todavia, eu também não quero a plenitude leve que a sua memória me causa, mesmo ela sendo o melhor que há em mim. Deixa o você que me fez para lá, uma vez que 2012 nunca mais irá voltar. Pensar nisso me dá uma dor aflita, uma saudade palpita, algumas duvidas e espasmos e eu me contorço.

Eu divaguei tanto sobre você que está difícil imaginar esse 2014. Que comece par e termine impar. Que vista uma roupa no-vi-nha em folha. Que venha 2014 imprevisível. Inesquecível. Com copos cheios ou vazios. Que o batom vermelho fique e o resto se vá. Então vem para que eu me baste e um outro possível você me afague. Que não olhe para trás. Vem. Solicite-me. Estou aqui e vou até aí.

do último à alma

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“Memories light the corners of my mind, misty water-colored memories of the way we were. Scattered pictures of the smiles we left behind, smiles we gave to one another for the way we were. Can it be that it was all so simple then or has time rewritten every line? If we had the chance to do it all again, tell me, would we? Could we? Memories may be beautiful and yet what’s too painful to remember we simply choose to forget. So it’s the laughter we will remember, whenever we remember the way we were” – The Way We Were, Barbra Streisand

                Às vezes tudo passa tão rápido que, em um piscar de olhos, parece que o passado do ontem já se tornou tão sépia e preto e branco a um ponto de começarmos a pensar se tudo realmente aconteceu ou é nossa memória traiçoeira. O último ano foi tão maluco que eu não duvido nada que tudo tenha sido um tremendo sonho.

                Houve choro e vela e riso e canto e descaso. Houve querer voltar no tempo. Houve música. Houve desleixo. Houve sonhos e começos e realidade. Houve calmaria. Houve enchente e devastação. Um eu aqui e um você lá longe. Um eu aqui e um todos nós juntos. Houve pontos finais e pseudo-finais, reticências, ponto de interrogação, exclamação. Foi tudo tão estranhamente intenso e conectado que eu não sei se me cansou pela correria ou de tantos passos. Se fora de muito pensar ou de agir sem ao menos cogitar os prós. Se fora pelo tudo ou pelo nada, se fora pelo ter sido ou ter estado. A grande maravilha disso tudo é que fora.

                Nos últimos quatro finais de ano, eu tinha um discurso e uma mente trabalhando incessantemente em diversas linhas para o famigerado texto de Ano Novo. Tinha milhões de pedidos e vontades e certezas para serem escritas e acreditadas piamente pelos seus leitores. Eu agradeceria a alguns nomes, colocaria feijões para eles. Faria alguma piada de algo grotesco que me aconteceu. Diria que eu espero que ninguém saia da minha vida e que cada um me apraz de um jeito único e peculiar. Tão bobo, mas, no fundo, significante. Todavia, dessa vez eu não sei o que escrever, mas eu tenho a necessidade de fazê-lo, posto que algo me intrigou essa semana, ao me deparar com a música mais tocada no meu iTunes: ‘Amor é pra quem ama’ do Lenine. Eu dou risada.

                Eu ainda não sei ao certo como fazer isso, porque não queria que esse texto ficasse clichê, já que o ano que ele representa não fora, ou melhor, não poderia ter sido. Lembro-me quando comprei minha agenda 2012: abri, fui até o dia 31 de Dezembro e escrevei ‘Espero que tenha sido feliz’. Eu não pedi para passar em uma universidade, nem por “um amor para recordar”, nem por mais amigos, nem por mais dias de bebida, nem pela CNH, nem por loucura. Eu pedi apenas que a felicidade – ou algo que achamos que ela é ou que seja no mínimo parecido com – batesse a minha porta e me mostrasse todas as cores do mundo em 365 dias. No final: eu passei em algumas universidades, tive uma vida amorosa desastrosamente intensa, fiz amigos, colegas, bebi que nem louca, ri até o fôlego deixar de existir, chorei tanto que poderia ter desidratado, deixei a falta de memória me corroer e algumas amnésias entrarem. Deixei-me conhecer mais. Assim, fui conhecida. Descobri um Mundo. Deixei para trás aquilo que não se encaixa mais nesse Mundo. Fui quem eu queria ser. Vivi do verbo Viver.

                De algum jeito, maneira, situação ou acaso, no final deste ano de 2012, eu não tenho palavras para descrevê-lo. Nenhuma palavra que satisfaça a imensidão de vida que me rodeou. Nenhuma palavra que se encaixe nos autos e descreva mi-nun-ci-o-sa-men-te todos os trancos e barrancos, todas as dívidas, todas as lutas, todas as falas e todos os gritos. Nenhum termo que seja gostoso o suficiente e que tenha gosto de 2012. Dois mil e doce. Dois mil amores. Dois mil amigos. Dois mil sorrisos.

                Foi um ano tão vivo que o espectro não tem cores o bastante para me conceber um desenho colorido e perfeito… Ah, os últimos doze meses mostraram que nada é perfeito. Nada pode ser perfeitamente do jeito que queremos. No entanto, deixou bem claro que querer é poder e poder todos temos. Podemos sonhar. Podemos fazer. Podemos lutar. Podemos falar. Podemos amar e odiar a mesma pessoa. Podemos amar e odiar o Mundo. Podemos gritar. Podemos birrar. Podemos. Podemos o Mundo mudar. Podemos mudar a nós mesmos. Podemos ansiar por mais. Podemos deixar coisas para trás. Podemos esquecer. Porém, só não podemos apagar e, muito menos, nos arrepender. E, ainda assim, “tem tanta coisa pra ontem” que eu se o ontem não fosse passado tão distante, ainda poderíamos nos resolver.

                Não me arrependo de um nada. E, para mim, isso que torna 2012 tão magnífico: ter feito aquilo que queria fazer, na minha hora, no meu tempo, do meu jeito, sem porquês. Pensando bem, no fundo, o que fez 2012 dar certo foram todas as horas pontuais que deram errado. Cada erro ou cada saída da minha rota traçada me trouxeram uma vida a mais, um gosto novo, uma vontade de ver tudo pegando fogo. Todas as coisas que poderiam ter dado certo, mas deram errado, disseram-me que eu poderia fazer o que quisesse, mostraram para mim que eu poderia, apenas. E é por poder que eu vivi. Eu posso viver.

                Eu sei que pra mim o ar desse ano é único. Tem fragrância própria. Sabe quando você sente o vento te abraçar? E do nada aquela sensação de que o Mundo você pode abarcar? É exatamente assim que eu me sinto; apesar de todo o barulho, de todas as lágrimas, de cada pedaço do meu coração que ao poucos foram ficando ali e acolá. E se você fechar os olhos e olhar pra dentro de si, eu sei que você vai entender. Nada melhor do que o primeiro cigarro, do que o primeiro ‘eu te amo’ olho a olho. Nada mais confortável do que sorrir com cada lembrança e ver que, certo ou errado, tudo valeu para algo. Assim se resume esse ano tão excelente, tão excitante, tão misteriosamente feliz. Bem que eu já me disseram que “o essencial é invisível aos olhos”: eu não conseguiria solidificar ou personificar algo e nomear de 2012, nada conseguiria trazer esse sentimento de necessidade de viver tudo de novo e de não querer perder nenhuma peça desse meu tão bem composto ano.

                Dessa forma eu finalizo: quero agradecer a todas as peças. Obrigada por terem me dado esse quebra-cabeça. Obrigada por terem me mudado de algum jeito. Obrigada por terem me dado cores novas. Odores novos. Dissabores novos. Palavras novas. Abraços novos. Que venha 2013 com esse ar estabelecido de mudança, com muitas lutas, com muitos amores, com muitas metas. Que venha 2013 com a minha sina do Três. Que venha 2013 ainda mais vermelho. Ainda mais quente e indescritível. Por fim, que venha 2013 me colocar em um Estado de Ouro.

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