da lisura

por tam

* cotidiano. cíclico. não é sobre você;

** para não dizer que abandonei.

Ao som quase imperceptível da TV ligada e depois de algumas mudanças de posição, abre os olhos. Com rabiscos de um vida, a parede verde ganha reflexos amarelados – não do Sol que ilumina o lado de fora, mas sim da lamparina de canto que permaneceu acesa. Porventura, se não fossem os fragores que ricocheteiam a veneziana de madeira e também o celular que anuncia o meio da tarde, poderia até pensar que ainda é madrugada. Na verdade, sempre é noite.

Levanta. Banheiro. Cozinha. Café. Quarto. Senta na cadeira preta. Levanta a tampa do notebook. Facebook, nada. Twitter, nada. Gmail, nada. Popcorn Time. Girls. Play. Pausa. Inbox. Outra xícara de café. Ensaia abrir ‘Niels Lyhne’. Play. Inercia. Sobe a persiana.  Pausa. Cigarro. Café. Inbox. Whatsapp. Twitter. Textos sobre Feminismo. Whatsapp – chamaram-na para sair. Encolhe. Recusa. Pensa. Aceita; apesar dos pesares, que mal faz abandonar a luz amarela pelas luzes brancas dos postes por apenas algumas horas. Banho. Sai. Entra no carro. Oasis. 10 minutos. Vontade de voltar para o cubículo verde. Sufoco. Coração palpita. Incomodo. Ansiedade. Angustia.

Chega no bar. Drink. Conversa vai, conversa vem. Relógio não anda na mesma velocidade que ela. Uma hora e meia. Chega mais um. 15 minutos. Sufoco. Conversa vai, conversa vem. Chega outro. 15 minutos. Quer a cadeira preta. Cansaço. Reluta. A cabeça pesa. Os olhos piscam. Cigarros. Terceira hora. Decide que vai embora. Despedida. Dirige pela força do hábito. Inconsciente. Oasis. Casa. Começa a chover.

“É um sinal. Voltei na hora certa, pelo menos não me molhei”