{água vívida}

quando as confissões se libertam

do nada acontece

é impressionante como esperamos sempre que algo aconteça. esperamos sempre que a vida siga em um certo ritmo. quando engata esse ritmo. e do nada desengata. o estranhamento pela falta de acontecimento choca-se com as expectativas desmedidas. o descontentamento com o marasmo. na verdade, a própria avaliação do conceito do termo. quando se acorda viva e se vive entre as pessoas, frequenta três lugares diferentes em um fim de tarde e, ainda assim, considera isso marasmo. afinal, como lidar com o sentimento de que algo está sempre prestes a acontecer? e então não acontece. viver a solidão na São Paulo da garoa parece que tem limites. quer liberdade maior do que viver no próprio tempo em um fim de tarde na noite gostosa que nos engole?

até minutos atrás, não incomodava estar comigo mesma… desenfreado foi o movimento de buscar alguém. mania nefasta da modernidade. a tecnologia nos retira esse grau de imprevisibilidade. a própria leveza do que deveria ser viver.

do sonho

eu tive um sonho. daqueles que a memória consegue apenas destacar instantes-já que juntos não fazem sentido. as imagens não dizem muito. daqueles que os instantes-já são repletos de emoção… fui dormir com todos os sentimentos do mundo engasgados na goela. loucura, calma, loucura, calma… respira. chora. disfarça. levanta. densa… até que acordei. o tipo de ressaca da angústia é entorpecente. a cama e meu corpo tornaram-se um. lembrei brevemente que sonhei. uma espécie de esperança e calma. coração. paciência. contraditórios.

do tempo

faz bons anos que não escrevo sobre você. eu realmente não tenho o que escrever sobre você. é louco como funciona a vida. e o coração. aos poucos, no meu caso lentamente, superamos as dores. e então, subitamente, eu não lembrava mais de você. no passe de mágica da virada deste ano, dei conta disso. não no primeiro dia do ano. mas depois. estou impressionada comigo mesma.

e, logo em seguida, devolveram-me uma das minhas mulheres. ou ela simplesmente acordou. tal como a bela adormecida. salvação. a vida.

P.S.: a primeira sentença deste fragmento estava nos rascunhos de 2016. eu não terminei de escrever naquele tempo.

da inverossimilhança

Entramos em 2018. Lúcida o bastante. Livre e leve. Fortalecendo-me. Rompendo ali e acolá. Como se uma tranquilidade adentrasse o corpo – jamais me ocorreu antes. Confiança e autossuficiência. Inexplicável. Sem medo. 

Estranheza. Inverossimilhança. Afinal, como é viver assim?

Questionei-me se este estado em que me encontro não é uma espécie de negação. Da vida como ela é. Realidade. Estar em negação. Não acredito que seja medo. Porventura, organizar e romper. Das etapas. Mudança.

Ao passo que o mês avançou e na medida que o dia-a-dia tem se encaixado na rotina, mais quero ser uma manhã de domingo. Calma. Sossegada. Extrinsecamente radiante. Eu tenho dançado todas as manhãs. E madrugadas. O tempo é presente. Instantes.

E, mesmo assim, não me anula as dores. Como poderia? Eu não reclamo. Sentir me faz viva. Ainda que seja pela falta de ar. Angustias. Aquela pontada no peito. O ar blasé. A eterna sensação de lucidez. Como me diz Clarice, “em mim é profunda a vida”. Por dentro eu permaneço a mesma.

Caso contrário, se chamaria mágica. Ou tudo isso tem sido apenas um sonho.

 

 

da comemoração

e o que foi a vida? uma aventura obscena, de tão lúcida

hilda hilst. a obscena senhora D.

novamente, amanhã é o aniversário. eu entro em pânico. aquele desconforto. nausea. como sempre, atacam o estômago.

eu fico minutos parada na mesma posição. quem sabe assim, o incomodo passa. o silêncio me absorve. eu me fecho. coração esquenta.

eu sigo acreditando que viver exige um certo talento natural. dom. que certamente eu não possuo. contento-me com o simples existir. apenas tolero os acasos que se sucedem dia após dia. e constituem a vida.

ando indisposta. o desejo não se sustenta assim. cansei da rotina. desinteressante. aos poucos, vou cedendo para a solidão. no fundo, quando a loucura não nos invade, consigo ser.

nada vence a indisposição. tenho evitado situações distractivas. afundo-me em alguns livros, cadernos. café e cigarro. remédios. e os dias poderiam ser resumidos assim. idealmente.

comemoraremos clarice, hilda e eu. amanhã. no ritual do três de novembro.

efêmero

eu me rendi à falta de rotina. esse é o significado de férias. tenho cedido aos prazeres da cama. e neles cabem apenas eu, o edredom e filmes. ninguém mais. nada mais. nem livros, nem o caderno. essa falta de energia persiste. a vida continua chata, pela falta de um termo melhor. nada extrínseco acontece. ainda que internamente tenho feito malabarismos para seguir vivendo e trabalhando. porventura, a monotonia tem me cansado. eu sinto falta do intenso, mesmo que a consequência natural seja sofrer. eu necessito constantemente de dissabores. masoquista. auto destrutiva. ou o nome que quiserem. é uma contradição. uma vez que as mudanças não fazem parte da lista de favoritos. confusões. o futuro incerto. o presente certo. entre viver alucinadamente e o insosso. eu adoraria escolher sempre o que será fugaz.

da esperança momentânea

há algumas semanas, como venho evidenciando nos últimos parágrafos, um cansaço frente a minha aparência, jeito e vida tomou conta dos devaneios. quero aquele olhar claro e limpo das cenas do Mundo. no entanto, querer não é poder, e a vida segue tão opaca quanto antes. as angustias engasgam e parece que a qualquer momento uma catástrofe acontecerá. a indiferença exteriorizada frente aos  aspectos da vida é a única reação do corpo, mesmo que racionalmente eu saiba o que cada momento pede. viver dessa maneira tem sido um porre.

eu preciso me salvar da depressão. análise. psiquiatra. pilates. a escrita. eu me mantive no mundo e, aos poucos, fui voltando a viver em sociedade diariamente. já consigo levantar da cama. as crises acontecem raramente. ainda assim, esse cansaço que me dominou pede outras saídas. eu ainda não sei quais são.

no feriado, repaginei esse confessionário. assisti mulher maravilha. cortei o cabelo na altura dos ombros. platinei o cabelo. aquele castanho que fui deixando nos últimos dois anos precisava sair. como sempre, sigo acreditando fielmente que mudar radicalmente as madeixas gera alguma espécie de mágica. em um estalar de dedos, tudo é deixado para trás. reinventar é possível.

pode ser que hoje, isso aconteça. amanhã, porventura, eu me frustre. contudo, deixaremos a instabilidade a cargo das manhãs que virão.

hoje, eu precisava mudar a aparência. agarrei na esperança de que isso transformará tudo que vem me deixando cansada.

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