{água vívida}

quando as confissões se libertam

aviso, eu estou.

há tempos não escrevo aqui. na verdade, valeria generalizar, porque há tempos não escrevo. e ponto. o caderno, as folhas avulsas, o blog. não tenho escrito. algo me bloqueia.

a rotina me explodiu. precisei de uns meses para começar a reerguer. fui pisoteada pela vida. quando dei por mim a sensação de ‘não aguentar mais’ havia se concretizado.

vou me corrigir de novo: eu escrevi pouco. para não dizer que não escrevi nada, arrisquei algumas elucidações após ler ‘a rebelião das massas’. o mundo, as possibilidades, a vida possível e a vida efetiva. qualquer dia compartilho por aqui.

reitero a convicção de que para se viver neste Mundo é necessário talento. algo inato. que, evidentemente, não possuo. e assim vamos andando. entre o difícil e o quase-impossível. ou esta é apenas a percepção da mente.

provavelmente, as coisas devem ser mais fáceis… e isso não me importa.

no fim das contas, estou tentando ser. mas, pelo menos e dessa vez, eu estou.

do nada acontece

é impressionante como esperamos sempre que algo aconteça. esperamos sempre que a vida siga em um certo ritmo. quando engata esse ritmo. e do nada desengata. o estranhamento pela falta de acontecimento choca-se com as expectativas desmedidas. o descontentamento com o marasmo. na verdade, a própria avaliação do conceito do termo. quando se acorda viva e se vive entre as pessoas, frequenta três lugares diferentes em um fim de tarde e, ainda assim, considera isso marasmo. afinal, como lidar com o sentimento de que algo está sempre prestes a acontecer? e então não acontece. viver a solidão na São Paulo da garoa parece que tem limites. quer liberdade maior do que viver no próprio tempo em um fim de tarde na noite gostosa que nos engole?

até minutos atrás, não incomodava estar comigo mesma… desenfreado foi o movimento de buscar alguém. mania nefasta da modernidade. a tecnologia nos retira esse grau de imprevisibilidade. a própria leveza do que deveria ser viver.

do sonho

eu tive um sonho. daqueles que a memória consegue apenas destacar instantes-já que juntos não fazem sentido. as imagens não dizem muito. daqueles que os instantes-já são repletos de emoção… fui dormir com todos os sentimentos do mundo engasgados na goela. loucura, calma, loucura, calma… respira. chora. disfarça. levanta. densa… até que acordei. o tipo de ressaca da angústia é entorpecente. a cama e meu corpo tornaram-se um. lembrei brevemente que sonhei. uma espécie de esperança e calma. coração. paciência. contraditórios.

do tempo

faz bons anos que não escrevo sobre você. eu realmente não tenho o que escrever sobre você. é louco como funciona a vida. e o coração. aos poucos, no meu caso lentamente, superamos as dores. e então, subitamente, eu não lembrava mais de você. no passe de mágica da virada deste ano, dei conta disso. não no primeiro dia do ano. mas depois. estou impressionada comigo mesma.

e, logo em seguida, devolveram-me uma das minhas mulheres. ou ela simplesmente acordou. tal como a bela adormecida. salvação. a vida.

P.S.: a primeira sentença deste fragmento estava nos rascunhos de 2016. eu não terminei de escrever naquele tempo.

da inverossimilhança

Entramos em 2018. Lúcida o bastante. Livre e leve. Fortalecendo-me. Rompendo ali e acolá. Como se uma tranquilidade adentrasse o corpo – jamais me ocorreu antes. Confiança e autossuficiência. Inexplicável. Sem medo. 

Estranheza. Inverossimilhança. Afinal, como é viver assim?

Questionei-me se este estado em que me encontro não é uma espécie de negação. Da vida como ela é. Realidade. Estar em negação. Não acredito que seja medo. Porventura, organizar e romper. Das etapas. Mudança.

Ao passo que o mês avançou e na medida que o dia-a-dia tem se encaixado na rotina, mais quero ser uma manhã de domingo. Calma. Sossegada. Extrinsecamente radiante. Eu tenho dançado todas as manhãs. E madrugadas. O tempo é presente. Instantes.

E, mesmo assim, não me anula as dores. Como poderia? Eu não reclamo. Sentir me faz viva. Ainda que seja pela falta de ar. Angustias. Aquela pontada no peito. O ar blasé. A eterna sensação de lucidez. Como me diz Clarice, “em mim é profunda a vida”. Por dentro eu permaneço a mesma.

Caso contrário, se chamaria mágica. Ou tudo isso tem sido apenas um sonho.

 

 

da comemoração

e o que foi a vida? uma aventura obscena, de tão lúcida

hilda hilst. a obscena senhora D.

novamente, amanhã é o aniversário. eu entro em pânico. aquele desconforto. nausea. como sempre, atacam o estômago.

eu fico minutos parada na mesma posição. quem sabe assim, o incomodo passa. o silêncio me absorve. eu me fecho. coração esquenta.

eu sigo acreditando que viver exige um certo talento natural. dom. que certamente eu não possuo. contento-me com o simples existir. apenas tolero os acasos que se sucedem dia após dia. e constituem a vida.

ando indisposta. o desejo não se sustenta assim. cansei da rotina. desinteressante. aos poucos, vou cedendo para a solidão. no fundo, quando a loucura não nos invade, consigo ser.

nada vence a indisposição. tenho evitado situações distractivas. afundo-me em alguns livros, cadernos. café e cigarro. remédios. e os dias poderiam ser resumidos assim. idealmente.

comemoraremos clarice, hilda e eu. amanhã. no ritual do três de novembro.

efêmero

eu me rendi à falta de rotina. esse é o significado de férias. tenho cedido aos prazeres da cama. e neles cabem apenas eu, o edredom e filmes. ninguém mais. nada mais. nem livros, nem o caderno. essa falta de energia persiste. a vida continua chata, pela falta de um termo melhor. nada extrínseco acontece. ainda que internamente tenho feito malabarismos para seguir vivendo e trabalhando. porventura, a monotonia tem me cansado. eu sinto falta do intenso, mesmo que a consequência natural seja sofrer. eu necessito constantemente de dissabores. masoquista. auto destrutiva. ou o nome que quiserem. é uma contradição. uma vez que as mudanças não fazem parte da lista de favoritos. confusões. o futuro incerto. o presente certo. entre viver alucinadamente e o insosso. eu adoraria escolher sempre o que será fugaz.

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